terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Acerto de Contas

Consultório médico 11:00 da manhã de um dia qualquer.
Ele entra na sala. A médica com seus óculos pequenos de garrafa o encara com desprezo. Ele olha e desvia o olhar várias vezes. Detestável! Terrível ter que encarar aquela cara de carranca. Ele começa a descrever os seus sintomas. Depois ela inicia a lista de sequelas. Ele desloca lentamente o seu braço da cadeira. Procura o cabo enfiado com cuidado na cintura da calça.
Puxa violentamente a peixeira e avança em direção a doutora. Várias estocadas, o sangue espirra em cima da mesa.
-Toma vagabunda! Toma sua putinha! Toma sua desgraçada!!!
Depois de estripá-la, ele senta a admirar o seu trabalho.
A secretária invade a sala e faz o seu drama. Apenas mais alguns segundos de sossego antes que os miseráveis invadam a sala. Ele contempla um pouco mais, fascinado. Ela era gastroenterologista! Fazia um mês que ele tentava descrever os seus sintomas e sempre foi tratado da mesma maneira: ela lhe receitava remédios e mais remédios controlados, dava-lhe um sermão, dizia como era difícil a vida pra ela também, que ele devia arrumar um emprego, que na verdade ele sofria de preguiça e falta de vergonha na cara!
Ver aquela vagabunda daquele jeito tão exposta, tão frágil, tão humana, causava um bem danado mas ele precisava partir! A sua jornada sangrenta apenas havia começado. Ele ainda tinha alguns consultórios médicos para visitar antes de dizer adeus.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

SEQÜELAS

Quando eu fui admitido naquele escritório sabia que seria presa fácil como uma ovelha sendo levada para morrer num covil de lobos! Eu nunca havia trabalhado antes e via todos aqueles rostos e toda aquele trabalho como um fardo muito pesado, mesmo assim fiquei três anos preso num lugar que eu não suportava com pessoas que eu sabia que me odiavam ou no mínimo me suportavam contanto que eu fizesse tudo direito. Mas com o passar do tempo eu percebia que se não agisse, acabaria morto e sufocado pelo terrível mar de obrigações e responsabilidades que jogavam nas minhas costas. Foi quando me vi obrigado a sair dali o mais rápido possível e fazer de cada noite, uma festa interminável, viver cada dia como se fosse o último. Como não tinha amigos devo admitir que, de início até as primeiras amizades e relacionamentos foram comprados. Quando olhava o meu salário todo fim de quinzena, eu imaginava como era patética aquela situação de ter dinheiro e não ter com quem gastar.
Mas depois surgiram as amizades, amigos de amigos que se tornaram íntimos e com os quais eu me identificava completamente.
Viver numa cidade como João Pessoa pode não ser uma das coisas mais desagradáveis do mundo mas também não é uma das mais afortunadas. De uma cidade que está numa localização nada privilegiada no contexto sócio-político-econômico de um país não se poderia esperar grandes coisas. Quem gosta de se divertir em João Pessoa tem que ser muito criativo ou ter muito dinheiro para criar o seu próprio tipo de diversão. E quando a pessoa gosta de um estilo musical que não é muito aceito pela maioria da população as coisas se complicam mais ainda. Pois é exatamente o que acontecia comigo e com meus amigos que perambulávamos nas ruas de João Pessoa em busca de alguma diversão. Gostávamos de Rock e isso era uma coisa reservada aos becos, periferias e subúrbios da cidade! Foi num desses becos que eu me diverti como nunca, numa noitada alucinada, com muitas bebidas, drogas, música (rock), e tudo que eu tinha direito pois queria conhecer tudo e não bastava que tivessem me falado ou tivesse visto em filmes ou livros, eu queria tocar, sentir no meu próprio corpo o gosto e o prazer dessa verdadeira loucura que é estar vivo.
Falo com uma certa nostalgia, mas na verdade eu não queria voltar atrás, nem poderia, mas não me arrependo de ter curtido. Eu tinha que passar por isso. Minha própria natureza curiosa me levou a todas essas experiências. Seria muito triste não ter vivido.
Mas a jornada continua. Ficaram as seqüelas e eu tenho que lidar com elas. Mas ainda tenho muito que aprender e experimentar.

OVERDOSE

Qual o movimento que faria com que tudo adquirisse sentido? Qual a sensação que valeria uma vida? Morrer de Overdose! Morrer de Overdose! Morrer tendo um orgasmo! Ser preenchido até que o copo transborde! Será essa a sensação? Mais alguém foi levado para o palácio da sabedoria. Vinho, toda sorte de iguarias. O deleite e satisfação de todos os prazeres!
Aqueles que a viram morreram. Cairam fulminados. Aqueles que viram a face de deus morreram e cairam fulminados. Um olhar direto na face da Bissexualidade! Mais alguém morreu de Overdose!

Espectros

Algum sentimento novo?
Alguma novidade sobre morar numa cidade onde ninguém te respeita?
Algum sentimento estranho paira no ar.
Quando Clarence Leery se movia lentamente pelo úmido chão do seu apartamento a suave brisa da manhã entrava pela janela e o frio na sua espinha era como uma espada afiada e pontiaguda que se cravara na sua alma.
O corpo na cama esperava ansiosamente o seu retorno.
Clarence entrou no banheiro. Pegou sua navalha.
A primeira estocada atingiu o seu cliente ainda de bruços e o seu grito podia ser confundido com um gemido de prazer.
Ele voltou-se para o espelho e apreciou a beleza de tudo aquilo. Sua alma refletia-se no espelho do teto. Um terrível espectro aproximou-se por traz de Clarence.
Caiu fulminado em cima do seu cliente. Enquanto as almas debatiam-se entrelaçadas no espelho.

Sepulcro

"Somos duas almas diferentes", ela falou. Somos duas pessoas diferentes que nunca se encontrarão. E a vida continuava com seu ritmo lento testando os meus nervos e minhas percepções. O tédio fazendo dos meus dias meses e os meses tornando-se séculos de infindável solidão. Quando a encontraria de novo eu não sabia. Mas era certo que a minha busca só acabaria quando ela estivesse ao meu lado. Depois de tanta procura, no silêncio e serenidade da sepultura pude te reencontrar. Distantes em vida, mortos, dois cadáveres, rondando a cidade deserta nós finalmente conseguimos nos encontrar!

sábado, 1 de novembro de 2008

NOSTALGIA

Onde está você que fazia os sinos tocarem?
Por onde tem andado o motivo do meu sorriso, que me abria as portas do paraíso?
Que me deixava sem conseguir comer tamanha era a ansiedade?
Nunca mais vi, nem sei por onde anda, embora tenha povoado os meus sonhos mais felizes!
Embora tenha idealizado, sonhado, apesar de todos os planos e de construir uma vida inteira em pensamentos...
De que adianta sonhar?
E não realizar?
Quem sabe um dia?
Devo continuar a sonhar?
Ou me contentar e definhar?


sexta-feira, 24 de outubro de 2008

LUTO

Eu tento me manter firme e insensível diante do clima de tristeza e pesar que se abate sobre os familiares da velha morta há apenas alguns metros da minha casa. Tento me manter impassível diante da inexóravel certeza que aguarda a todos nós. Mas fico só, no meu quarto, e coloco uma música. Ela soa mais triste do que nunca e a chuva, a jorrar incansávelmente, a romper os céus com sua triste obstinação. Como se quisesse me mostrar que se importa... como quisesse me fazer enxergar que ainda se importa...
Eu vi a jovem passar por mim, e a tristeza em seu coração é algo real que quase podemos tocar, as pessoas em volta tentam demonstrar solidariedade, o que me doi é a hipocrisia, as pessoas que se mantém afastadas durante toda uma vida se aproximam na hora da morte, nessa hora eu também me afasto, não ofereço o consolo a jovem, mas respeito a sua dor.
E na solidão do meu quarto, a música soa mais triste do que nunca, e a chuva irrompendo os céus com sua lúgubre determinação... Como se quisesse me mostar que se importa...como quisesse me fazer enxergar que alguém ainda se importa...