quarta-feira, 18 de agosto de 2010

OS ESQUIZITÓIDES - PARTE I - DIMITRI

-Você sabe resolver essa equação?
-Bem, eu não tive tempo de estudar essa noite...
Ele sempre desconversava ao menor sinal de confrontação com sua incapacidade em relação a algumas matérias. Isso acontecia com uma certa frequência e ele já não conseguia disfarçar aquela estranha situação. Tudo que lhe era apresentado, qualquer situação-problema, sempre recebia a mesma resposta, fosse qual fosse ela, era invariavelmente: NÃO.
Seus pais tentavam de tudo para mascarar ou tentar torná-lo menos estúpido mas quase sempre o resultado era o mesmo.
Dimitri era um fracasso. Não tinha pra onde correr. Enquanto seus amigos se formavam e a maioria deles já tinha terminado o ensino médio, ele continuava ali, repetindo ano após ano aquela mesma série. Já tinha até aprendido todos os macetes do ano, tinha decorado todas as aulas e alguns professores desconfiavam que Dimitri, ou tinham algum problema mental ou gostava de alguém da sala a ponto de retardar ao máximo a sua saída daquele ano.
-Dimitri, meu filho, vamos fazer um teste extra essa tarde! Você já deve ter visto há tanto tempo essa matéria que já deve até ter virado doutor!!!
Após a correção das provas a nota era tão baixa que alguns professores se recusavam a colocar o resultado na folha de papel: ia direto pro lixo.
-Tá com diarreia mental!!! Só pode ser!!! Ninguém pode ser tão burro!!! Ele repetiu isso três anos!!! É DEMENTE!!! Só pode ser! Um caso de demência mental no seu mais alto grau.
Com os seus olhos esbugalhados e suas espinhas na cara, suas mãos frias e geladas, sua extrema magreza e corcunda, Dimitri era uma das figuras mais esquisitas e excêntricas que frequentavam a escola Dr Elpídio, e uma das mais dedicadas na arte do silêncio.
Era chamado de mudinho por algumas meninas e sempre ficava rabiscando e desenhando monstros no seu caderno.
A verdade é que ninguém sabia o que se passava na casa dele. O terror e pavor que o sufocavam, o medo e o tédio que invadiam a sua vida a cada dia. Os dias preenchidos de vazio e solidão quando o seu pai partia para trabalhar e jogava uma rajada de ódio e decepção quando enxergava Dimitri no quarto. Certa vez falou que ele seria capaz de errar o próprio nome e nem saberia dizê-lo se fosse perguntado (Isso aconteceu uma vez: Dimitri ficou nervoso ao preencher um formulário de inscrição de um curso e errou o seu sobrenome).
O próprio Dimitri duvidava da sua capacidade e sanidade. Uma mentira muitas vezes contada se torna uma verdade.
Dimitri tinha certeza absoluta quando entrou na loja naquele dia.
-Eu quero esse mesmo. E me dê esses cartuchos também!
-O senhor vai gostar! Essa é da boa! Tem boa mira, ótima capacidade de tiro, o senhor não vai se arrepender dessa comprar!
Quando ele comeu um hambúrger naquela manhã sentiu um gosto estranho descendo pelas suas entranhas. Tinha um gosto doce e ao mesmo tempo amargo. Pagou e saiu sem fitar as pessoas nos olhos. Já não mantinha contato visual com as pessoas há algum tempo. Tudo era turvo e desconexo nos seus pensamentos. O céu estava nublado naquele dia e a rua deserta inspirava, dava até vontade de caminhar mais um pouco.
Chegou em casa e sentiu o céu mais pesado, trovões e raios de intolerância e estupidez despencaram sobre a sua cabeça.
-Você estava aonde seu vagabundo? Não foi pra aula outra vez, não é? Ainda continua ouvindo aqueles discos idiotas? Você vai ser um inútil a vida inteira.
Abriu sua bolsa vagarosamente saboreando cada segundo como se fosse uma deliciosa iguaria, algo que ele queria aproveitar bem, antes que se acabasse. "Agora o senhor não vai me achar um inútil nunca mais!" Pensou.
Tirou lentamente o revólver da bolsa enquanto o seu pai colocava lentamente mais uma colher de sopa na boca.
-UM REVÓLVER!!! PUTA QUE O PARIU!!! UM REVÓLVER!!! - Dr Giovanni empalideceu e mal conseguia se conter de tanta estupefação.
-O senhor não queria que eu virasse homem? Então tá aqui o que o senhor queria!!! Seus movimentos eram lentos e calculados, tudo feito com muita calma, embora por dentro estivesse fervilhando de emoção.
Dr. Giovanni levantou-se da mesa num ímpeto, derramando o prato de sopa e dirigindo-se a Dimitri.
-EU TENHO ORGULHO DE VOCÊ, MEU FILHO!!! DEUS SEJA LOUVADO! O MEU FILHO É UM HOMEM!!! UM HOMEM!!!
Dimitri jogou o revólver na mesa e mal conseguia conter o asco e a sensação de desprezo. Recebeu o abraço com os dois braços caídos. Como se fosse um débil mental. Como seu pai sempre dissera...

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