segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

MEMÓRIAS DE UM JUNKIE - O BAR

A sua história começa num bar vagabundo da cidade de João Pessoa. Digo vagabundo no sentido de que não tinha frescura nenhuma, não era frequentado pela elite. Apenas jovens rebeldes e delinquentes perdidos como ele costumavam frequentar aquele pulgueiro. Era por volta de 2003 ou 2004, e não me pergunte o que rolava nas paradas de sucesso da época porque qualquer pesquisa no google pode responder essa pergunta.Ele era um dos mais velhos da turma e vivia as suas experiência tardias de sexo, drogas e rock´n rol.
Tudo era novidade e qualquer tipo de contravenção era vista como o mais subversivo ato de rebeldia, digno de valor e de elogio. Bonnie e clyde eram seus heróis. Tinha cerca de 21 anos, como falei era velho para as primeiras descobertas, mas tudo veio tardiamente na sua vida, o primeiro emprego, a primeira transa e só hoje em dia, mais de 15 depois, ele se sente quase um homem maduro.Sempre gostou de ler e buscava também através da leitura tudo que pudesse alimentar o eterno desejo por transgressão e rebeldia. Nome? Não interessa, mas eu posso citá-lo para fins de referência. Dog Eraldo. Resolvi começar por aquele dia naquela pocilga, simplesmente porque foi marcante. Ou porque foi um marco inicial em toda a trajetória de loucuras.
Ele adentrou aquele corredor escuro, por volta das 15:00 de uma tarde tediosa de domingo. Uma daquelas tardes em que muitos se matavam sentados em uma poltrona assistindo domingão do Faustão. Era morrer aos poucos não fazendo nada em casa, ou trabalhando em alguma emprego idiota no comércio para ganhar uma mixaria. Ele trabalhava como auxiliar de escritório na época e odiava aquele emprego, a sua vida e tudo o que ela representava.Teve que subir alguns degraus antes de chegar lá em cima, no salão de festas onde havia o bar, a pista de dança e o palco onde as bandas se apresentavam. Ele ainda estava preso às amarras de sua vida antiga, claro. Mas lutava diariamente contra isso. Nesse dia sua aparência o deixava orgulhoso: calça jeans rasgada, uma camisa do Dead Kennedys e uma bota de peão de obra. O grito moralista do pai ainda ecoava nos seus ouvidos como uma ordem: "COMPORTE-SE SEU DESGRAÇADO, OU EU TE DOU UMA SURRA", mas ele respondia prontamente: FODA-SE!!!
Já começava a ouvir o som das guitarras pesadas. Entrou no salão e estava tudo lá, tudo que ele adorava. O cheiro de bebida barata que recendia daquelas pessoas, aquele clima de caos e desordem, pessoas fumando maconha pelos cantos, tudo aquilo ia de encontro à toda merda moralista que ele já tinha escutado antes. Olhava cada uma daquelas pessoas com a animosidade de uma criança, era tudo novo para ele e fazia questão de aproveitar cada momento.Avistou duas "vampirinhas" num canto fumando sentadas no parapeito de uma janela. 'Perfeito", pensou, mas não ousou se aproximar delas. Ainda não estava ao alcance. Precisava se encharcar de uma maior quantidade de álcool. Apesar de já ter bebido umas 5 ou 6 cervejas, ainda não sentia-se parte da turma.
Foi quando entrou aquele cara. Nome? posso citá-lo também: Barner. Barner era aquele tipo de cara que faria com que a palavra esquisito começasse a adquirir um novo significado. Tinha uma altura mediana, cabelos grandes e castanhos, usava aparelho. Embora não fosse um cara feio, Barner tinha um sério problema de dicção. Era quase impossível escutar o que ele falava e acrescentando a isso o fato de que ele ria feito um demente quando achava algo engraçado, se havia alguma beleza nele, era difícil saber onde estava escondida. Eraldo já conhecia o Barner (contarei depois quando o conheceu quando apresentar os outros personagens dessa história) mas era sempre uma experiência única quando o encontrava, porque tinha que se esforçar para entender o que ele falava e fazer de tudo para fingir que entendia quando não escutava nada. Naquele dia tocaria uma banda cover, coisa bastante comum naquela casa de show e Dog Eraldo estava doido pra ficar maluco, o que só seria possível se começasse a entornar mais bebidas.
-E aí, Barner? Como cê tá?
-Tu tá muito doido, Eraldo.
-Nada, cara. Eu nem comecei...
-Vamos tomar uma então...
Começaram a tomar cervejas e a banda cover do Nirvana começou a tocar. Naquela hora sentiu-se tomado de um espírito grunge incontrolável. Era como se estivesse em Seattle. Iniciáva-se a fase "Nirvana" do Dog Eraldo, todas as suas peripécias e estripulias seriam feitas no intuito de imitar ou ao menos parecer com as loucuras do finado Kurt Cobain. O álcool já começava a fazer efeito e o baseado que fumou há algumas horas ainda corria pelas suas veias.
-Barner, meu velho... Não sei você, mas eu vou curtir o som de perto!
Mal acabou de falar já estava no meio do pessoal, nesse dia poderia se considerar que a casa estava cheia, havia cerca de 50 pessoas se acotovelando naquele salão que era pouco espaçoso. Dos personagens dessa história apenas havia o Barner e um que Eraldo só viria a conhecer algum tempo depois: o grande Inaldo. Ele já estava lá desde o começo, figurinha tarimbada dos shows de rock underground da cidade, Inaldo tinha entrada franca porque era amigo do dono do bar.
Muitas coisas que serão relatadas nessa história na verdade são fragmentos, recortes de coisas que ele lembra, porque o álcool e as drogas se encarregaram de ofuscar e obscurecer todo o resto. Nesse dia lembra-se de ter se afastado de Barner e de que ele saiu pouco tempo depois. Ficou só, com o som do nirvana e não tirava as "vampirinhas" da cabeça. Depois de ter polgado um certo tempo e ter se transportado para Seattle em plena época de nascimento do grunge, foi ao bar e reiniciou sua jornada etílica.
A bebida já cobrava seu preço e acabava de lembrar que além do álcool e da maconha, tinha tomado alguma pílulas de rivotril, estava completamente dopado. Tudo vinha em flashes e como num passe de mágica estava sentado e vendo que as vampirinhas o encaravam. Melhor que isso: elas começavam a se dirigir na sua direção.
Nessa hora puxou um cigarro na tentativa de acendê-lo mas uma delas, a Catrina, começou a rir e apontar para suas mãos trêmulas. Com movimentos econômicos pôde observar que estava fumando o cigarro ao contrário! Incrível como não havia percebido! Mas isso só serviu pra aumentar o interesse delas pela sua pessoa. Afinal de contas ele estava ali, com aquele visual punk, visivelmente drogado, e pouco se fudendo pra tudo que fosse vivo ou respirasse.
-Toma, eu vou te dar essa pulseira.
A catrina puxou uma pulseira feminina e lhe deu. Ele colocou imediatamente no braço e ficou admirando: 'puxa ficou bem gay! Ótimo! Quanto pior melhor!!!"Conversaram mais um pouco e elas disseram que tinham que ir, a outra, Debora, deu-lhe um beijo no rosto e falou que eles se viam por ai.
Ele tinha feito amizade com essas meninas que sempre via por ali, e elas simplesmente vieram ao seu encontro sem que ele precisasse ir atrás. Ele realmente gostou disso. Esse foi o início de uma série de shows nessa mesma casa onde bebia demais, fumava maconha e vinha tomando esses comprimidos que ora eram anfetaminas, ora tranquilizantes. Quando estava no bar bebendo o vinho observou que vez ou outra o atendente fazia uma careta quando o via entornando o copo.
-Qual foi, cara? Eu gosto de vinho... - Falou, Eraldo.
-Beleza, velho. Eu não gosto é de ficar de cara (sem a Cannabis). Esse vinho eu dispenso. - O atendente disse com um sorriso escroto.


-Teve, álcool eu tomando. - Dog Eraldo, retrucou.
-Mas, sabe o que é cumpadi? é que reza a lenda que o dono do bar mesmo prepara esse vinho ai, ele mesmo pisa as uvas, sabecumequié...
Devia ser com o pé podre de sujo, ou com uma ferida purulenta ou sei lá mais o que.
O cara falava com nojo imenso do processo. Ele continuou bebendo e não ligou para isso. Na verdade, uma das melhores coisas dessa época era que ele não ligava para porcaria nenhuma. Queria viver a vida com toda a intensidade. E realmente conseguiu fazer isso por alguns dias...

2 comentários:

Harrison disse...

oi mizera! feliz natal pra cÊ! to bebo agora e vi sem coment. leio sim seu blog. este texto que comento ainda n li. quando ler retorno a este mesmo local para dizer te o que achei. tudo blz querido, como andas? hehe ;}

Harrison disse...

haha, li o texto agora. dá para saber quem são os personagem e o lugar hehe. eu comprei uma camiseta do dead kennedys na musica urbana. que passado nefasto, não? kkkkk pois eram ora anfetaminas, ora tranquilizantes ;}